terça-feira, 20 de março de 2007

Sessão sem humor
Heróis sem holofotes!

escrito por Galvão*

Eram mais ou menos duas horas da manhã quando levei minha mulher ao posto de saúde do meu bairro, Vila Almeida. Ela estava com os sintomas clássicos da dengue, febre, dores pelo corpo e de cabeça, vômitos, depois de agonizar durante o dia. Caro leitor, prossiga nessa leitura, pois uma simples ida a um centro de saúde, numa madrugada dessas, na cidade de Campo Grande e no auge de uma epidemia, cabem aqui mais reflexões do que eu imaginava, me motivando a escrever isso. Por favor, continue!
Primeiro me veio à cabeça os números da dengue que são propagados na mídia. 30 mil? 60 mil? 100 mil? Isso não me dizia nada, até quando cheguei ao posto e vi a quantidade de gente, com possível quadro clínico dessa praga. Agora sim eu estava assustado. Acordei! Porque números são números, estatísticas são frias. Pessoas são pessoas, são vidas, famílias, sofrimentos. Isso é totalmente diferente. Sentir na pele dói muito mais do que ver a moça bonita do jornal falando de dados e de estudantes fazendo mutirões pra limpar terrenos baldios.
O vigia do posto me chamou atenção incrivelmente, pela atenção e o carinho com que recebia os pacientes, embora não fosse essa a sua tarefa. Um olho no cadeado, outro no enfermo, devia ser seu inocente lema. Uma prontidão com todos, uma preocupação. Perguntava, se compadecia e afagava todo mundo que chegava ali. Ai eu não agüentei e desabei um tanto, chorei um pouquinho. Essa sua doação não havia preço. Este funcionário sim, estava no lugar certo, na hora certa. “Eureca!” Como diria Machado de Assis num famoso conto seu, já parafraseando Arquimedes, cabe aqui como uma luva. Isso me transportou para um artigo que lera recentemente, não sei de quem, recebido por e-mail. O texto criticava a atitude do apresentador da Rede Globo, Pedro Bial, ao chamar os participantes do BBB7 de “heróis”. Heróis, dizia o texto, são... e foi citando nome de pessoas famosas que mereciam tal crédito, como, o que eu me lembro, Madre Tereza de Calcultá. Mas, por favor, que me perdoem todos os famosos citados na referida crônica, todavia, heróis mesmos são pessoas anônimas, como o vigia do posto de saúde, que fazem o bem sem olhar a quem, sobretudo à mídia, se entregando ao mais puro altruísmo. Essas pessoas, sim, que pude testemunhar diversas vezes, e em situações totalmente adversas, me causam uma emoção profunda e me resgatam para o bem. E a maioria é gente simples e humilde, como esse vigia, que divide o que não tem. Os reais heróis são desconhecidos do mundo! Tenho pouca dúvida, hoje, sobre isso.
Por fim, depois de medicada, minha amada, fez um hemograma, tomou soro, etc. E isso já eram umas três e pouco da madrugada, foi liberada, estava bem. Voltamos para o nosso humilde lar. Ela Estava bem para brigar comigo de novo. Esta é a última reflexão da manhã, incauto leitor, servindo pra mostrar que não sou tão bom assim, como o diabo pinta! Eu sou Galvão, mas não sou nem primo distante do “Frei”.

*Músico de Campo Grande e editor deste blog

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