sábado, 25 de novembro de 2006

Juntando os selinhos

Um conceituado Jornal de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, fez uma promoção que me deixou alegre e alvoroçado. Você juntaria quinze selos e os trocaria por um celular moderno. Soube disso pelo meu vizinho que é assinante do referido Jornal e se comprometera a me dar os selinhos todos os dias pra que eu os colasse na cartela. Isso me reportou saudosamente para os tempos de ouro, de colar figurinhas nos velhos álbuns. Melhor ainda, é uma oportunidade de ter um celular novo, daqueles que abrem e fecham, chamado, me parece, de flip. Além dos quinze selos na seqüência, também foram publicados as figurinhas chamadas “coringas”, me parece que cinco no total, porque se caso você perdesse um jornal, valeria tal selo, eventualmente, pra cobrir qualquer dia. Puxa vida, eles pensaram em tudo, até numa possível distração do leitor! Mas isso tardou em alguns dias o término da promoção, no processo de preenchimento da cartela. Eu nem precisei, pois eu não perdi um dia!
Confesso pra vocês que o modo de colecionar os selos e no final, adquirir meu telefone me deixou ansioso. Todos os dias eu chegava na casa do vizinho ainda pela manhã, com uma tesourinha, daquelas de cortar os pelos do nariz, próprias pra operações melindrosas. Eu recortava somente o selo, com bastante cuidado, pra não comprometer os artigos, porque o jornal ainda nem havia sido lido, chega dava pena. Eu até poderia pegá-lo à tarde e evitar incômodo com o meu bondoso vizinho, mas a minha ânsia não permitia isso.
Pacientemente ou não o tempo passou e finalmente eu completei a cartelinha. Ufa, que alívio!!! Estava radiante de felicidade. Agradeci mais uma vez ao meu santo vizinho e parti para o centro da cidade, afoito como um menino. Fui a uma das lojas credenciadas da operadora de celular da falada promoção pra pegar meu aparelho. Quando eu cheguei na empresa, percebi de cara algumas pessoas saindo da casa, com a cartelinha preenchida, e pior, sem o celular. Achei estranho, mas peguei minha senha e esperei. Fui chamado ao guichê e uma moça bonita me atendeu. Já fui logo no assunto, entreguei-lhe a cartela: “vim pegar meu telefone” – falei alegre, mas meio cabreiro. Foi aí que ela explicou uma série de exigências pra poder participar do tal plano X Conta, ou algo parecido. Também me mostrou o telefone da promoção. Na foto do jornal ele até parecia mais bonito, robusto, achei-o meio chinfrim ao vivo, mas tudo bem. Ela disse delicadamente:
- Comprovante de residência dos últimos noventa dias, comprovante disso, daquilo, documentos pessoais e conta bancária!
- Conta bancária?
- Sim, senhor, é uma das exigências deste plano.
- Mas eu não tenho conta e agora?
- Infelizmente não podemos fazer nada.
Ai eu fiquei indignado e o sangue subiu... mas não poderia descontar na moça. Fiquei triste. Mas aí ela veio com uma proposta, me mostrando outro celular, mais bonito, esse sim, era bonito mesmo:
- Este é de graça no plano Y e não precisa ter conta bancária. Você não tem interesse?
- Melhor ainda. Eu quero!!! – disse eu renascendo das cinzas. Fiquei radiante!!!
Trocando em miúdos, passei o mês inteiro juntando os selinhos gratuitamente e como vocês puderam notar, a loja ofereceu e oferece de graça um outro celular e ainda melhor e sem burocracia. Nem precisa ter conta bancária. Ou seja as operadores, de um modo geral, fazem isso. Foi aí que “caiu a ficha”. Hoje em todos os supermercados tem algo parecido com o que o jornal fez. Você compra tantos reais e ganha “de grátis” um celular”.
Não sei se é propaganda enganosa. Acho que não. Talvez não. Espero que não, mas com certeza mexe com a nossa ingenuidade. Eu me senti um idiota, juntando os selinhos. Talvez algumas pessoas que voltaram com sua cartelinha pra casa, recheada de selos, por não atender aos critérios do programa, também. Não sei, cada caso é um caso. Estou escrevendo isso não somente porque aconteceu, em parte comigo, mas porque aqui cabe uma reflexão sobre o marketing atual, na atual economia globalizada: é de uma violência brutal. Isso me faz lembrar as promoções da Coca Cola. São mais ou menos assim: Junte milhões de tampinhas e com mais 6 reais, ganhe um bichinho de pelúcia. Ou seja, um bichinho de pelúcia que custa Cr$ 1,99, você paga três vezes mais e ainda passa uma eternidade juntando tampinhas, feito um bobo. Eu juro pra vocês, mas, uma vez numa pizzaria, havia um panfleto que dizia: Promoção: com dezesseis reais compre duas pizzas de oito. E não era piada. Minha mágoa é que não guardei o panfleto que poderia apimentar e ilustrar bem mais esta conversa. Agora, este marketing de nos tratar como retardados é aparentemente estranho, num mundo aonde se tem mais acesso a tudo, às comunicações, leituras, filmes, revistas, todo tipo de mídia. Mas eu caí! Nós caímos e milhares de outras pessoas caem nesses contos!!! Na realidade, a propaganda, infelizmente, ainda se utiliza daquela velha máxima dos laboriosos praticantes dos contos do vigário de tempos passados: “todo dia nasce um otário”.

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